A Superintendência-Geral do Cade aprovou sem restrições a compra de 73,01% do capital da Desktop pela Claro NXT — e o que chama atenção não é a operação em si, mas o raciocínio que o órgão usou para liberá-la. Pela primeira vez, o parecer colocou TV por assinatura e plataformas de streaming dentro do mesmo mercado relevante nacional.
Na prática, o Cade reconheceu o que qualquer assinante brasileiro já sabe há anos: quando alguém cancela a TV paga, o dinheiro costuma migrar para Netflix, Prime Video ou Max, não para outra operadora de cabo. Ao tratar os dois como concorrentes diretos, o cálculo de concentração de mercado muda — a fatia da Claro em TV por assinatura deixa de parecer dominante quando o denominador passa a incluir todo o streaming.

O órgão, porém, colocou um freio na própria tese. A Superintendência destacou que a pressão competitiva entre os serviços é assimétrica: o streaming pressiona a TV paga, mas o contrário não acontece com a mesma força. Por isso, restringiu a aplicação do conceito a este caso específico, que envolve empresas concentradas em TV por assinatura e sem plataforma própria de streaming. Com base em dados da Anatel, o parecer aponta que as plataformas respondem por cerca de 90% dos acessos no mercado híbrido de conteúdo.
O que muda para quem assina
No curto prazo, pouco: a Desktop é uma provedora regional de banda larga, e a integração ao grupo Claro tende a aparecer primeiro em rede, atendimento e empacotamento de planos. O efeito relevante é regulatório e de longo prazo — se o entendimento se consolidar, futuras fusões no setor de telecomunicações e conteúdo passam a ser analisadas com um mercado bem maior como referência, o que torna aprovações sem restrição mais prováveis.
Para o consumidor, esse é o pano de fundo de uma mudança que já vinha acontecendo por conta própria. A migração de quem trocou o pacote de canais por dois ou três serviços de streaming e um aparelho conectado na TV é justamente o comportamento que o Cade colocou no papel. Se a sua casa ainda depende do decodificador da operadora, um stick de streaming resolve a transição por bem menos do que uma mensalidade de TV a cabo.
Atualização: compra concluída em 1º de outubro
A Claro fechou a compra da Desktop na quinta-feira (1º), cerca de duas semanas depois do aval do Cade. O acordo tinha sido assinado em março e foi estimado em R$ 1,75 bilhão por 72,83% das ações, comprados do fundo Makalu Brasil Partners e de quatro sócios pessoas físicas. A Desktop chega com mais de 1,2 milhão de clientes em mais de 200 cidades paulistas, como Sorocaba, Campinas, Sumaré, Piracicaba, São Carlos, Rio Preto, São José dos Campos e a Praia Grande, no litoral.
Na nova diretoria da Desktop, Rodrigo Marques de Oliveira assume a presidência e Roberto Catalão Cardoso fica com finanças e relações com investidores. O plano da Claro é absorver a base de clientes e a rede de fibra da regional para crescer em banda larga fixa no interior de São Paulo. Como condição do Cade, ela terá de reorganizar as redes de acesso, e vai pedir à CVM o registro de uma oferta pública (OPA) para comprar as ações que ainda estão no mercado. Para o cliente da Desktop, nada muda de imediato: contrato, plano e preço seguem valendo até que a Claro anuncie a migração.
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